Terça-feira, 6 de Julho de 2010


VERGÍLIO FERREIRA



Breve biografia




Vergílio Ferreira nasceu em Melo, Gouveia, em 1916. Quando tinha quatro anos os seus pais emigraram para o Brasil, deixando-o com as suas tias, com quem se cria na Serra da Estrela. A ausência dos progenitores e a sua infância serrã terão uma grande influência na sua obra, como no romance Nítido Nulo. Depois de uma peregrinação a Lurdes entra no seminário, onde estuda durante seis anos, após os quais entra no Curso Liceal da Guarda. As suas vivências no seminário inspirarão Manhã Submersa, uma das suas obras melhor sucedidas.  Em 1935 ingressa na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde se formará em Filologia Clássica, terminando o curso em 1940. Durante este tempo escreveu poesia, que nunca foi publicada, para além do seu primeiro romance, O Caminho Fica Longe, em 1939. Depois disto, iniciará a sua vida como professor de liceu, que o levará a estabelecer-se em diversas cidades portuguesas.


Virgílio Ferreira falece em Lisboa em 1996.



As duas fases.




A crítica vergiliana costuma dividir a sua obra em duas fases bem definidas, a do neorrealismo inicial e a do existencialismo. Contudo, nem todos os críticos colocam o início duma fase e o fim da outra no mesmo ponto. Devemos entender, não obstante, que há uma transição gradual, embora rápida, duma fase para a outra, que começaria com Mudança (1949). Será com Manhã Submersa e com Aparição que o existencialismo chegue ao seu pleno desenvolvimento.




Obra inicial




A primeira obra de Vergílio Ferreira, O Caminho Fica Longe, é pouco conhecido por causa da sua proibição pela censura, que apreendeu a maioria dos exemplares do livro antes de serem vendidos nas livrarias. Segundo declara o próprio autor, não é um romance representativo na sua obra nem poderia ser publicado hoje sem grandes modificações.  Apesar de que esta obra é geralmente classificada como uma obra da primeira fase neorrealista, Aniceta de Mendonça aponta que esta obra deveria ser classificada mais como presencista do que neorrealista. Isto dever-se-ia a que, pela sua juventude (23 anos), não existiria ainda no autor (aliás, como ele mesmo reconhece) a intencionalidade de inscrever-se numa ou noutra escola, senão que imitaria por inércia a prosa anterior já mais consagrada, a da geração da Presença1.



Os dois livros seguintes, Onde Tudo foi Morrendo e Vagão "J" , são também geralmente considerados romances neorrealistas. Destes dois, o segundo, no qual se narra a história de uma família pobre, animalizada e embrutecida, é o mais representativo.




Quanto ao facto de se inscrever neste movimento, o autor reconhecera que era devido ao contexto (fim da Segunda Guerra Mundial) e à existência do "mito do comunismo" entre os membros da sua geração. Ele, como outros autores, acreditava nisso que depois definiu como "uma religião" e só com o tempo decidiu não fazer parte do PCP e afastar-se. Apesar disso, o autor não chega a militar nunca contra o comunismo2.




Existencialismo



Na segunda parte da sua obra, o neorrealismo deixa passo à influência de Sartre e do existencialismo. Vergílio Ferreira retrata o ser humano em todas as suas tragédias, escolhas e procuras, questionando-o e apresentando-o ante a miséria da solidão, acentuada pela ausência de Deus. Tudo isto insere-se num forte  transfondo autobiográfico,  pois é na sua infância longe de seus pais e na experiência do seminário que este sentimento se desenvolveu mais.




Quanto a este tema,  a sua obra não é só importante como escritor, mas também como filósofo, chegando a aprofundar em muitos aspetos mais do que o próprio Sartre.



Algumas obras desta fase



Mudança




Nesta obra, o autor conta-nos a história de dois irmãos, filhos dum rico proprietário de uma indústria de tecidos. Carlos, filho legítimo, aspira a estudar e herdar o negócio do pai. Pedro, porém, fica trabalhando com o pai. Há aqui um conflito entre os dois irmãos, cada um na situação que a vida lhes outorgou, mas esta situação mudará com a ruína e suicídio do pai, que deixa Carlos numa situação de igualdade ou mesmo de inferioridade face a Pedro. Para além disso, esposa de Carlos, rica, também está numa situação de superioridade, o que causará a separação, motivada pela tentativa de controlá-la de Carlos. Por outro lado, o marxismo de Pedro contrasta com as aspirações políticas (por puro interesse pessoal) de Carlos. A obra termina com a solidão de Carlos e a tentativa de envenenamento por parte da sua esposa.



O próprio Virgílio Ferreira descreve-nos o significado desta obra no seguinte trecho:



"Mudança [...] será fundamentalmente o drama entre a plenitude, o absoluto para o comportamento que justamente se exige de cada um numa época, e o relativo, o contingente para um juízo íntimo sobre o valor dessa época, vista a distância. O conflito entre o homem-realidade-decisiva e irrevogável, e o homem acontecimento episódico numa sucessão indefinida de homens.4"





Manhã Submersa



Manhã Submersa, como outras obras de Virgílio Ferreira, é um romance profundamente autobiográfico, no qual se nos conta a história de um menino que é forçado a entrar no seminário. Na obra são tocados diversos temas, como o amor, a solidão, a repressão da Igreja, a educação religiosa, enquadrados na história de um rapaz apartado do que ele considera o seu mundo, o da aldeia em que nasceu, e inserido noutro de maus-tratos e proibições onde, apesar de pertencer a uma classe teoricamente privilegiada, não pode desfrutar das liberdades que os outros meninos desfrutam.


Esta obra, inicialmente pouco conhecida,  popularizou-se depois do 25 de Abril, graças ao seu anticlericalismo, à fama do autor e ao filme de Lauro António5.




Aparição



Nesta obra, Vergílio Ferreira desenvolve as suas teorias existenciais através das ideias do protagonista, Alberto Soares, que lembrando diversos momentos e circunstâncias da sua vida consegue exemplificá-las e explicar porque pensa assim. Deste modo, Alberto mantém uma relação de amor ódio com Ana, a sua cunhada, depois de abandoná-lo a sua mulher. Ana não concorda com as suas ideias, mas ao mesmo tempo interessa-se por elas.  Para além disso, a morte de diferentes personagens serve-nos para analisar o sentido da existência e da vida. Assim, o Bailote comete suicídio por ter perdido a fonte do seu rendimento, Cristina por ser perfeita demais para esta vida, Sofia por punição pelo mal que tinha feito aos outros.


O próprio título Aparição faz referência às teorias e pensamentos que se descobrem diante do protagonista. Para além de ser a obra mais importante do seu existencialismo, é também a obra onde inicia a estratégia do eu-narrador-protagonista, na linha do romance-problema, como ele próprio o designa. Será esta também a linha seguida em Alegria Breve.





Nítido Nulo



Nesta obra, o autor continua a sua particular interrogação da vida, da morte, de Deus, do sentir e do destino. Neste livro o que se põe em causa é Deus, o regime e Salazar. O protagonista deste romance é Jorge, que nos conta a sua história através dos seus pensamentos. A contrário doutras obras em que para além das memórias havia texto escrito, não há mediação da escrita aqui, o que a leva a identificar-se como um texto abstrato7. A temática corresponde-se com a época em que foi escrito, 1969, ano de uma grande atividade revolucionária, que anunciava uma possível mudança.



Este romance narra a história de Jorge, um revolucionário encerrado na prisão enquanto espera a sua execução. Jorge lembra momentos da sua vida a da sua luta, de cujos ideais se duvida nalgum momento. Nesse espaço de prisão corporal as suas ideias são livres.




Contra-Corrente



Entre 1981 e 1994, Vergílio Ferreira publicou nove volumes de diários com este título, que vão desde 1969 até 1992. Estes diários conformam um interessante registo da mudança do pensamento português ao longo do século XX e uma interessante ferramenta para o conhecimento da sua obra e do seu pensamento.





1 DE MENDONÇA, Aniceta. "«O Caminho Fica Longe», de Vergílio Ferreira, e o romance dos anos 40". In: Revista Colóquio/Letras, no 57, Setembro de 1980, p. 36-38. Disponível em: <http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/issueContentDisplay?n=57&p=36&o=p>. Último acesso em: 5 de julho de 2010 às 7:17.



2 FERREIRA, Vergílio. Entrevista de Francisco José Viegas. In: Revista Ler, primavera de 1988. Disponível em: <http://fjv-cronicas.blogspot.com/1990/03/entrevista-verglio-ferreira.html>. Último acesso em: 5 de julho de 2010 às 07:18.


4 RODRIGUES DE PAIVA, José. Vergílio Ferreira: Para Sempre, romance-síntese e última fronteira de um território ficcional. Pernambuco, Editora Universitária da UFPE, 2007.



5 PINHEIRO, Júlio. O real e a ficção na "Manhã Submersa" de Vergílio Ferreira. In: Síntese, no189, março-abril de 2008. Disponível em: http://www.snpcultura.org/impressao_digital_manha_submersa.html . Último acesso em: 6 de julho de 2010 às 12:30.


7 RODRIGUES DE PAIVA, José. Op. cit.


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