Sábado, 3 de Julho de 2010

Sérgio Godinho – O sangue por um fio

Ainda que "tudo é triste no reino da metáfora", muitos desejamos entrar nele com assiduidade. Por isso apresento, já nesta entrada de férias, alguma possível recomendação ou, quando menos, novidade chegada às minhas mãos.
Bem é certo que a faceta de Godinho como intérprete e compositor ondeava pela minha cabeça (sendo uma destas referências que nalgum momento passam à recâmara) quando o livreiro da Bertrand pegou neste livro. Mas seria incoerente negar que a segurança do vendedor, a capa e alguns versos lidos quase a voo de pássaro pelas páginas, me fizeram trazê-lo comigo.
Ao igual que "a uma conhecida estepe chega o eco da montanha", também até nós podem chegar os grandes temas universais da poesia, se bem cheguem trabalhados, e não com sabores reconhecíveis ou gastos.
O fio de sangue, que sempre "nos prende à realidade" parte-se em sete regueiros (secções) no poemário, e com ele reflexionamos sobre a angulação dos olhares, pois "noite é dia noutro mundo", aproximamo-nos à morte sem dramatismo, ou percebemos que "cadeiras vazias são prova de vida".
É esse fio, o fio da memória, que goza dum dos tratamentos mais peculiares. Não se fala das horas passadas com nostalgia, senão com aceitação, consciência ou relato: "Cada faca tem dois gumes?/ Tira morte leva vida?"

Desde um ponto de vista pessoal, gosto do legado de Baudelaire que pode ser identificado n'"O destino súbito". O canto ao protótipo de mulher parisina e fugaz que o poète maudit por excelência inaugurou, recolhe-se aqui. O instante, o "súbito", o "olhar", um giro rápido, uma cidade. A percepção de mudanças históricas que são hoje irreversíveis e a vivência do choque do transeunte no meio da multidão, questões estudadas na órbita do "sentir na cidade". Podemos lembrar ao Baudelaire de "A uma transeunte" com os versos de Godinho:
"Não deu para decorar a tua cara/ girou e já tínhamos desaparecido/
mas o olhar foi de frente/ e ficou na face do prisma e na memória/
primeira incubação na terra do nunca/ o destino súbito"

Doutra banda, ambulâncias, pneus, alguém no pelotão de fuzilamento, uma arma de fogo "para chegar mais depressa aos inimigos/ a qualquer parte do corpo" são os apontamentos de dureza, outras amostras do sangue que faz latejar o livro. No entanto, conviria apontar para uma expressão calma, nem exaltada nem sensacionalista. Uma expressão de veracidade, a mesma que abre a obra: "a verdade é ser verosímil". Por isso, e em conexão com as declarações do autor, há também poemas que ligam com o território do pessoal, da vivência concreta, como "O meu nome":
"Porque é que minha mãe hoje me chamou
e eu percebi que quem escolheu o meu nome foi o meu pai?"

Para fechar estas reflexões, gostaria de citar o poema que mais me atraiu: "Fui chamado ao dique". Desde a metáfora dalguém chamado ao dique para que, com o seu "dedo no furo" contivesse a desgraça, o autor transcende a temas como: "o sentido da responsabilidade", o esforço e a dor que as obrigas produzem ("Enquanto a água corria/ aumentava a superfície da ferida") e os detalhes do relacionamento com o entorno, ligações pessoais... ("Foram-me dando de comer à boca/ escondi a mão livre/ para que se sentissem livres de o fazer"), etc. O protagonista reclama-se parte da "civilização", já que sabe que foi "ele" que foi chamado ao dique. E do mesmo jeito, reconhece o seu sentimento ante esse reclamo: "o instinto sempre foi mais forte/ o día mais difícil da minha vida".

Aqui fica, para quem quiser conhecê-lo:

"Fui chamado ao dique"

Fui chamado ao dique
nada iria ruir
dedo no furo
a não ser em caso de recusa justificada
dilema aceite.

Os dias que se seguiram foram os mais difíceis dos meus dias.

Enquanto a água corria
aumentava a superfície da ferida
a dúvida do dedo pronto
a alegria de voltar a casa
o sentido da responsabilidade
a irresponsabilidade e os seus sentidos:
houve alguém que se esfregou em mim
testando a minha inmobilidade
estava ali e era ali parado que tinha que estar.
Foram-me dando de comer à boca
escondi a mão livre
para que se sentissem livres de o fazer.

Ofereceram-se tempestades por nada em troca
aumentava a superfície da ferida
redes de pesca e o pecúlio do dia
abandonados à sua sorte
a maré da sua sorte.

Água que corre
traz por um furo a vida
tapa o furo
nasce a vida
também agora
a civilização.
Falo nela porque faço parte dela
fui eu que fui chamado ao dique.

Morte e vida protegidas do horizonte:
alastra o perigo
reforça-se a pressão
daí dúvida do dedo pronto
o instinto sempre foi mais forte
o día mais difícil da minha vida.
-Sérgio Godinho-

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