Ainda que "tudo é triste no reino da metáfora", muitos desejamos entrar nele com assiduidade. Por isso apresento, já nesta entrada de férias, alguma possível recomendação ou, quando menos, novidade chegada às minhas mãos.Bem é certo que a faceta de Godinho como intérprete e compositor ondeava pela minha cabeça (sendo uma destas referências que nalgum momento passam à recâmara) quando o livreiro da Bertrand pegou neste livro. Mas seria incoerente negar que a segurança do vendedor, a capa e alguns versos lidos quase a voo de pássaro pelas páginas, me fizeram trazê-lo comigo.
Ao igual que "a uma conhecida estepe chega o eco da montanha", também até nós podem chegar os grandes temas universais da poesia, se bem cheguem trabalhados, e não com sabores reconhecíveis ou gastos.
O fio de sangue, que sempre "nos prende à realidade" parte-se em sete regueiros (secções) no poemário, e com ele reflexionamos sobre a angulação dos olhares, pois "noite é dia noutro mundo", aproximamo-nos à morte sem dramatismo, ou percebemos que "cadeiras vazias são prova de vida".
É esse fio, o fio da memória, que goza dum dos tratamentos mais peculiares. Não se fala das horas passadas com nostalgia, senão com aceitação, consciência ou relato: "Cada faca tem dois gumes?/ Tira morte leva vida?"
Desde um ponto de vista pessoal, gosto do legado de Baudelaire que pode ser identificado n'"O destino súbito". O canto ao protótipo de mulher parisina e fugaz que o poète maudit por excelência inaugurou, recolhe-se aqui. O instante, o "súbito", o "olhar", um giro rápido, uma cidade. A percepção de mudanças históricas que são hoje irreversíveis e a vivência do choque do transeunte no meio da multidão, questões estudadas na órbita do "sentir na cidade". Podemos lembrar ao Baudelaire de "A uma transeunte" com os versos de Godinho:
"Não deu para decorar a tua cara/ girou e já tínhamos desaparecido/
mas o olhar foi de frente/ e ficou na face do prisma e na memória/
primeira incubação na terra do nunca/ o destino súbito"
Doutra banda, ambulâncias, pneus, alguém no pelotão de fuzilamento, uma arma de fogo "para chegar mais depressa aos inimigos/ a qualquer parte do corpo" são os apontamentos de dureza, outras amostras do sangue que faz latejar o livro. No entanto, conviria apontar para uma expressão calma, nem exaltada nem sensacionalista. Uma expressão de veracidade, a mesma que abre a obra: "a verdade é ser verosímil". Por isso, e em conexão com as declarações do autor, há também poemas que ligam com o território do pessoal, da vivência concreta, como "O meu nome":
"Porque é que minha mãe hoje me chamou
e eu percebi que quem escolheu o meu nome foi o meu pai?"
Para fechar estas reflexões, gostaria de citar o poema que mais me atraiu: "Fui chamado ao dique". Desde a metáfora dalguém chamado ao dique para que, com o seu "dedo no furo" contivesse a desgraça, o autor transcende a temas como: "o sentido da responsabilidade", o esforço e a dor que as obrigas produzem ("Enquanto a água corria/ aumentava a superfície da ferida") e os detalhes do relacionamento com o entorno, ligações pessoais... ("Foram-me dando de comer à boca/ escondi a mão livre/ para que se sentissem livres de o fazer"), etc. O protagonista reclama-se parte da "civilização", já que sabe que foi "ele" que foi chamado ao dique. E do mesmo jeito, reconhece o seu sentimento ante esse reclamo: "o instinto sempre foi mais forte/ o día mais difícil da minha vida".
Aqui fica, para quem quiser conhecê-lo:
"Fui chamado ao dique"
Fui chamado ao dique
nada iria ruir
dedo no furo
a não ser em caso de recusa justificada
dilema aceite.
Os dias que se seguiram foram os mais difíceis dos meus dias.
Enquanto a água corria
aumentava a superfície da ferida
a dúvida do dedo pronto
a alegria de voltar a casa
o sentido da responsabilidade
a irresponsabilidade e os seus sentidos:
houve alguém que se esfregou em mim
testando a minha inmobilidade
estava ali e era ali parado que tinha que estar.
Foram-me dando de comer à boca
escondi a mão livre
para que se sentissem livres de o fazer.
Ofereceram-se tempestades por nada em troca
aumentava a superfície da ferida
redes de pesca e o pecúlio do dia
abandonados à sua sorte
a maré da sua sorte.
Água que corre
traz por um furo a vida
tapa o furo
nasce a vida
também agora
a civilização.
Falo nela porque faço parte dela
fui eu que fui chamado ao dique.
Morte e vida protegidas do horizonte:
alastra o perigo
reforça-se a pressão
daí dúvida do dedo pronto
o instinto sempre foi mais forte
o día mais difícil da minha vida.
Fui chamado ao dique
nada iria ruir
dedo no furo
a não ser em caso de recusa justificada
dilema aceite.
Os dias que se seguiram foram os mais difíceis dos meus dias.
Enquanto a água corria
aumentava a superfície da ferida
a dúvida do dedo pronto
a alegria de voltar a casa
o sentido da responsabilidade
a irresponsabilidade e os seus sentidos:
houve alguém que se esfregou em mim
testando a minha inmobilidade
estava ali e era ali parado que tinha que estar.
Foram-me dando de comer à boca
escondi a mão livre
para que se sentissem livres de o fazer.
Ofereceram-se tempestades por nada em troca
aumentava a superfície da ferida
redes de pesca e o pecúlio do dia
abandonados à sua sorte
a maré da sua sorte.
Água que corre
traz por um furo a vida
tapa o furo
nasce a vida
também agora
a civilização.
Falo nela porque faço parte dela
fui eu que fui chamado ao dique.
Morte e vida protegidas do horizonte:
alastra o perigo
reforça-se a pressão
daí dúvida do dedo pronto
o instinto sempre foi mais forte
o día mais difícil da minha vida.
-Sérgio Godinho-
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