Domingo, 4 de Julho de 2010

Cemitério de pianos - José Luís Peixoto

Cemitério de pianos é uma obra com algum ano mais às costas que a de Sérgio Godinho. O romance chega a nós em 2006, logo que este autor tenha já publicado vários títulos em poesia, prosa e alguma peça de teatro (alguns, traduzidos para 12 idiomas), e tenha sido recolhido em dezenas de antologias modernas, traduzidas a bom número de línguas. Pese à sua juventude, vem respaldado por prémios como o Prémio Jovens Criadores (área de literatura) nos anos 97, 98 e 2000, ou o José Saramago, que recebeu em 2001, pelo romance Nenhum Olhar.

1. Para saberem do enredo sob os meus olhos


“Repetíamo-nos e afastávamo-nos e aproximávamo-nos.
Éramos perpétuos uns nos outros.”
Salvando uma estrutura organizadora do relato muito moderna, encontramos a história duma família, vertebrada em base a constantes e surpreendentes paralelismos vitais.
Por escolhermos um fio desde o qual tirar, podemos tomar a figura de Francisco Lázaro. Homem de origem humilde, trabalha na carpintaria, que tem uma dependência anexa: o Cemitério de pianos (já que, por vezes, consertam estes instrumentos). O ofício é uma herança de seu pai, chamado igualmente Francisco Lázaro, homem muito autoritário e com facilidade para impor ordem batendo em quem seja (especialmente na sua mulher... ou no filho que intervém e é excluído do lar familiar: o Simão).
O Lázaro tomado como referência, tem três irmãos: o já citado Simão, a Maria e a Marta. Ao Simão feri-lo-á numa brincadeira, sendo meninos, por efeito da qual este fica sem um olho (e cria-se um fundo de culpa obscura e impotente que Lázaro vai arrastar toda a vida). A Maria é muito fantasiosa, e gasta meia juventude em ler romances de amor, de paixões e casamentos, se bem que seja certo que acabará encontrando um marido que a maltrata e despreza. Será desde um começo a companheira inseparável da Marta, mulher que, já medradas ambas, após saber das infidelidades do seu marido (até com a sua própria irmã) deixar-se-á cair (“à espera de nada”, p. 185) numa obesidade exagerada e irreparável que conleva o isolamento social, a sujeira e a deshumanização.
Assim, com uma cadência de analepses e prolepses que confundem (deliberadamente) ao leitor, vamos observando o ciclo de reiterações presente em comportamentos de distintas personagens, nomes partilhados dos descendentes...
No existir do Lázaro, há duas ligações fundamentais: uma delas é a música (da qual não é um experto, mas de que desfruta em solidão com cada piano arranjado) e outra, as corridas. Correr a modo de fugida, de libertação muitas vezes, “o mais depressa que consigo” (p. 121), por uma Lisboa veloz, pela Benfica da casa familiar. Assim, no livro, observamos com uma lucidez admirável, quase segundo a segundo, o galopar atropelado dos seus pensamentos ao correr na maratona dos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912... Os capítulos estruturam-se da Partida ao Quilómetro trinta, em que cai morto, exausto. Nesse preciso instante, com muitos quilómetros por meio, há de nascer o seu filho, chamado também (sendo já o terceiro) Francisco Lázaro.
Mortes e nascimentos encadeiam-se, multiplicam-se, lembran-nos os enigmas da resurreição, já que esta terceira criança, ao crescer, far-se-á também cargo da carpintaria e descobrirá, da mão de Simão, seu tio, o Cemitério de Pianos; e da mão de sua tia Marta, a verdade sobre o seu próprio pai, libertando-se duma “ignorância negra” (p. 172) graças ao achado duma “caixa de sapatos cheia de medalhas”. Além disso, o último menino da Marta, o Hermes, há de nascer justamente o dia da morte do seu avô.
Para concluir, é necessário dizer que as mulheres dos distintos Lázaros, compartem muitas semelhanças, e que a narração adquire matizes sobrenaturais quando nos damos conta de que o avô duma das crianças de Maria (quer dizer, o primeiro Lázaro), comunica-se (depois de morto) com a menina (a Íris) através do Cemitério de Pianos.

2. Chiscadelas de olho ao estilo
Há paratextos de especial interesse, que elevam o grau de mistério dos acontecimentos narrados. Em primeiro lugar, considero preciso fazer menção da forma verbal latina que abre o livro, dominando o branco duma página por inteiro: “RESURRECTURIS”. É uma forma não pessoal, e de futuro, que poderia funcionar, tanto pela sua situação como pelo seu sentido, como dedicatória: “aos que hão de ressucitar”. Em segundo lugar, encontramos as citas, uma em inglês (de Kazuo Ishiguro) que atende a uma espécie de “karma” que devemos cumprir: enfrentarnos à vida como órfãos, capturando, com a passagem do tempo, sombras vaidosas dos pais... e a outra em português, nesta ocasião bíblica (João, 17, 20-26), que conecta à perfeição com o conteúdo do livro, fazendo referência ao mistério da Trindade: “para que todos sejam um só; como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti, que também eles estejam em Nós (...)”.
Encerra o livro uma Nota do autor com questões que já desvendei na sinopse argumental, aquela que nos indica o grau de veracidade da história no que diz respeito às circunstâncias de Francisco Lázaro como um atleta português.
Embora seja certo que o romance tem um ritmo considerável, e é inegável a inteligibilidade primeira da linguagem, também é verdadeira, na corrente narrativa, a presença do lirismo, onde menos o aguardemos. Há inúmeros exemplos disto, que podem aparecer em qualquer momento (mesmo dentro do monólogo interior):

“Benfica eram os pássaros que desciam do céu para pousarem à minha frente e
para
levantarem voo à minha passagem. (...) Benfica era o vento frio que me
moldava”
(p. 229).


Esta última amostra, que conta com a anáfora para reforçar, se cabe, o sentido das reflexões, não deixa de ser uma descrição. E é na descrição incrivelmente detalhista, onde vemos luzir-se a Peixoto. A lista de exemplos seria, também desta vez, muito significativa, mas escolherei a cena da pesca do filho com o pai:



“Depois, olhei através da água, fresca, esverdeada, atravessada por limos, sobre
um fundo de pó líquido, quase líquido, leve, e vi os peixes a deslizarem, a
dobrarem os seus corpos vermelhos, amarelos, cor-de-laranja” (p. 258).

Ademais, o poder da descrição serve, ao mesmo tempo, para criar estampas costumistas ou para remeter a outro conceito, alimentando o poder dos símbolos, como ocorre na identificação do pai com a camisa que veste:



“A camisola do nosso pai era áspera, picava. Eu conhecia o seu toque. Era
castanha, manchada, com pequenos buracos na malha, com os cotovelos gastos, com
pó, serradura, maravalhas. O nosso pai.” (p. 222).


Passadas todas estas observações, confesso que não gostaria de pôr o ponto final a este epígrafe sem dar uma opinião sobre o tratamento do tempo e o estilo.
Começando por este último, gostei especialmente dos trechos que
fazem referência e descrição exacta da corrida em Estocolmo. A angústia, o empenho, o suor (“a pesar-me, a esgotar-me” -p. 232), o movimento já mecânico de cada músculo, a resistência e a alteração dos sentidos são perfeitamente transmitidas pelas frases curtas e ligeiras: “As pedras ardem: brasas. A imagem de Estocolmo ondula. As fachadas das casas contorcem-se” (p. 232). Os episódios de violência são narrados com surpreendente perícia. A meu ver, é muito destacável o efeito cortante e apreensivo conseguido na cena em que o marido da Maria, totalmente fora de si, derruba o estante dos romances de amor e rasga-os com raiva. Num primeiro instante, serão orações com a sintaxe rota, até acabarem
num autêntico estropício todas as palavras, como as páginas desfeitas em nacos sobre a cama:

“E nervoso. Engasgando-se nas. Palavras. E como se. Gaguejasse. Atirou um braço
de encontro à estante e derrubou. Todos os romances de amor sobre. A colcha da
cama e como. (...) títulos: sonhos de, paixão casamento na, primavera as chamas
do coração mais, forte do que o preconceito vitória, do destino apaixonada pelo
homem, certo rapariga e mulher amar pela primeira, vez o desconhe, cido
irresistível flo, res demasia, do tarde pa, ra além do, desejo so, rriso c, rue,
l am, a, nhec, er, de e, mo, ç, õe, s.” (p. 191-192).

Porém, no que concerne ao tratamento do tempo, hei de dizer que a eleição dum formato “quebra-cabeças” (especialmente uma vez começada a corrida dos Jogos Olímpicos), em que alternam trechos com diferentes vozes narradoras –que pode custar diferenciar, pelas paridades vitais e nominais estabelecidas a propósito– e com momentos que, dada a díspar natureza dos seus emissores, não seguem a ordem cronológica…) faz que o leitor se perca, duvidando constantemente a atribuição da voz narradora a um dos “Lázaros”. Parece evidente que, neste novelo genealógico coincidente e ressurreccional, essa possa ser uma das pretensões do escritor.

3. Outras considerações pessoais: temáticas, simbólicas...
Há um tratamento quase delicioso, pela sua naturalidade e vivacidade, da infância. As crianças, as suas horas, perguntas e respostas, jogos e olhadelas estão perfiladas como as melhores. É o caso do Simão a contar um conto às sobrinhas: “–Era uma vez uma bufinha, que se chamava... (...) –Bufinha cor-de-rosa!” (p. 288-289), ou da Íris a brincar com as bonecas (com o seu primo o Hermes, p. 175), ou só nesse carrossel de actividade que as crianças impõem àquilo que tocam:


“-Não queres papar? Porque é que não queres papar?- pergunta à boneca, enquanto
lhe encosta uma colher pequena na boca de borracha. Depois, penteia-a. Depois,
deita-a a dormir. Vê-a dormir durante un instante, e acorda-a. Troca-lhe a roupa
e tenta de novo dar-lhe de comer.” (p. 19).
Quiçá com uma visão mais social ou aberta aos hábitos, detectamos boas descrições de comportamentos, imagens muitas vezes de fundo costumista. Seriam, por exemplo, o pai de família a bater o polvo antes de cozinhá-lo: “Aproximei-me dos degraus da entrada de casa e comecei a batê-lo com toda a força de encontro ao cimento” (p. 50). Uma mulher a fazer malha: casaquinhos e botinhas de lã para o filho (p. 21), “iluminada pelo candeeiro do petróleo” (p. 100), o nascimento da Maria tão detalhado, na casa, com ajuda da experiência da parteira: “A parteira enfiou dois dedos no céu da boca do bebé e, de uma só vez, puxou-o.” (p. 193).
A passagem dos dias, é constantemente comentada. Grande parte das personagens fazem comentários sobre certos dias da semana, principalmente, sobre o domingo, feliz (“Domingo. Sol” p. 199). Nas páginas 194 e 195, fala-se dos domingos desde 7 perspectivas diferentes: a da avô, Marta, Maria e os netos: Elisa, Ana, Hermes e Íris. E já ao começo:


“Era domingo porque estava sol, porque eu tinha decidido que não ia trabalhar,
porque se ouviam poucos automóveis na cidade, porque o mundo parecia infinito,
porque as minhas filhas tinham vestidos com laços que se atavam atrás da cintura
(...) (p. 49).
Adentrando-nos já no nutrício terreno da simbologia, encontraríamos vários aspectos que comentar.
Um deles, e de grande interesse pessoal, é a utilização simbólica dos elementos climáticos. Neste caso é o sol, um sol abrasador (que conecta com aquele que aparecia em L’étranger de Camus e cegava até tal extremo o protagonista) que encontramos, agoniante num momento de declaração amorosa: “O sol ardia nas ruas. Eu avançava por cima do sol.” (p. 69) e ao longo de toda a carreira, sendo uma das maiores dificuldades para o avance:


“e encontrar, no centro desse incêndio, o sol, único imperador, imenso, sereno,
assistindo à consumação do seu trabalho, à propagação inevitável do mal que
criou, que desejou criar” (p. 213).
Outro dos elementos simbólicos, é a ligação com a Bíblia. Lázaro é uma das figuras mais conhecidas pela sua união ao mistério da resurreição e as três personagens fundamentais do livro partilham com ele nome. Mas o certo, é que a ligação vai além deste detalhe. A considerarmos Lázaro, o corredor, como central na “tríade”, veremos também que, coincidindo com o personagem bíblico, tem duas irmãs chamadas Marta e Maria.

4. Em conclusão...


“Não quero apenas ter este nome, quero ser dono dele."

Cemitério de pianos é um romance labiríntico, mas com uma base realmente interessante: o encadeamento ou ligação de vidas e nomes numa mesma árvore genealógica. Os processos, tensões e problemas internos (“Tu morreste, estás morto, mas os teus erros continuam vivos. Os teus erros continuam” p. 209), as eleições, a constante resurreicção nos que serão depois de nós...: a identidade na transcendência.

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