Segunda-feira, 17 de Maio de 2010

Carlos de Oliveira, Uma abelha na chuva



Carlos de Oliveira- Óleo de Mário Dionísio

I. Enquadramento do autor e a obra
Carlos de Oliveira nasceu o 17 de Agosto de 1921 no Brasil, lugar onde seus pais tinham emigrado. Dois anos depois, a família voltou para Portugal e instalaram-se no concelho de Castañede, na região de Gândara. Em 1933 vai para Coimbra e em 1947 licência-se em Ciências Histórico-Filosóficas. Também ali começou a sua actividade literária, de facto, é considerado um dos principais representantes do movimento Neorrealista, pois participa em numerosas iniciativas que ficarão agregadas aos fundamentos do movimento. Além disso, colaborou nas revistas Altitude e Seara Nova, e dirigiu durante algum tempo a revista Vértice. Em 1948 foi para Lisboa, onde primeiro exerceu de professor durante alguns anos e logo de jornalista. Mas tudo partilhado com a faceta de escritor. As suas obras foram: Turismo (1942), Mãe Pobre (1945), Descida aos Infernos (1949), Terra de Harmonia (1950), Cantata (1960), Sobre o Lado Esquerdo (1968), Micropaisagem (1969), Entre Duas Memórias (1971), Trabalho Poético (2 vols. 1977-1978), Pastoral (1977), Casa na Duna (1943), Alcateia (1944), Pequenos Burgueses (1948), Uma Abelha na Chuva (1953) e Finisterra (1978). Finalmente faleceu em Lisboa a 1 de Julho de 1981, quando estava a reescrever o romance Alcateia.


II.Sinopse argumental
Na história, podemos observar duas acções claramente diferenciadas: a acção principal que narra as tortuosas relações entre Álvaro Silvestre e D María dos Prazeres, e uma secundária onde assistimos aos amores secretos de Jacinto, o cocheiro dos Silvestres, e Clara, a filha do Oleiro.
O romance começa apresentando a um viajante, Álvaro Silvestre, quando chega à redacção da Comarca de Corgos sob uma grande tempestade. O motivo da sua viagem era o de publicar uma confissão própria o mais rapidamente possível e sem importar o preço. Porém, antes de que o pudesse fazer, chegou a sua mulher, e quando o viu com o papel da confissão na mão, guardou-no para que não pudesse ser publicado.
Na viagem de volta à casa, mostra-se-nos uma relação um pouco tempestuosa entre ambos, à que devemos somar o mal estado meteorológico e as dificuldades que se apresentaram no caminho como quando a égua que levava a charrete, esfolou um joello. De seguido, apresenta-se o serão na casa dos Silvestres que recebem a visita do Padre Abel, D.Violante, D. Cláudia e, um bocado mais tarde, também do Dr. Neto. Todos iniciam uma conversa cujo tema central é a morte, a vida e a incapacidade do ser humano face à primeira. É interessante a intervenção do Dr. Neto, quando faz uma comparação entre a vida dos homens e as abelhas que ele mesmo cria, pois neste momento apreciamos a simbologia com o título Uma abelha na chuva.
Quando todos se tinham ido, Álvaro divagava pela casa bêbado e deprimido. Isto provocou um enfrentamento com D. Maria dos Prazeres, que rematou com ela no quarto e Álvaro no escritório. Passa a noite e pela madrugada o protagonista sai da casa para dar um passeio pelo campo. Então escuta a Clara, a filha do Oleiro, e a Jacinto, o seu cocheiro, que estavam escondidos no palheiro. Assim descobre que Clara está grávida e ouve como Jacinto se gaba dos olhares da sua patroa D. Maria. Então volta para a casa e conta-lhe ao Oleiro Mestre António que a sua filha “desgraçou-se”. A reacção dele não se fixo esperar e com a ajuda do seu servente Marcelo, em troca da sua filha, matam ao rapaz e tira-no ao mar. Clara descobre o acontecido e Álvaro ao enterar-se culpabiliza-se pela morte do “ruivo”.
Finalmente reflecte-se outro serão na casa dos Silvestres, onde se reúnem Álvaro, D. Maria dos Prazeres, D.Violante, o Padre Abel, D. Claudia e o Dr. Neto, para falar de todos estes acontecimentos. Ao dia seguinte, Clara suicidasse tirando-se a um poço. O Dr Neto tenta fazer algo para salva-la mas não consegue nada.


III. Particularidades narrativas
O livro de Carlos de Oliveira caracteriza-se pela sua acentuada simbologia. Embora o título seja Uma abelha na chuva, as abelhas estão pouco mencionadas, fazendo-se só alusão a elas, nas intervenções do Dr. Neto. Porém, é muito importante a presença da água no romance, que adopta, do meu ponto de vista, diferentes significados dependendo do momento. Em muitos casos a sua presença é ameazadora, como quando Jacinto é assassinado pelo oleiro e o seu ajudante “ Ali iam agora, com a chuva a fustigá-los.” (cap. XXII), ou quando uma multidão estava face à casa do Silvestre “caía uma chuva leve, farinhenta, mas no pátio, a multidão continuava firme. Nem o dilúvio a afastaria”. Noutras ocasiões apresenta-se como uma companheira que escuta, como nos soliloquios do protagonista quando este reflexiona e se culpabiliza dos desastres acontecidos ao seu arredor, junto à janela do escritório. Além disso, surpreendeu-me a utilização da mesma como ponte entre o passado e o presente, quando se diz “ ... a chuva caía, com certeza, no passado e agora.” (cap IV), ou “a água da memória lá recomeçou a correr” (cap V)
No que se refere às abelhas, a verdade é que não consegui descifrar o simbolismo. Porém, o que é inegável é que existe um paralelismo pessoa-abelha, que se explicita no final da obra, quando depois do suicídio de Clara, se diz que “ A abelha foi apanhada pela chuva ... “ (cap. XXXV).
Para finalizar com este ponto, devo fazer menção à possibilidade de conexão entre a situação espacial da obra e a do próprio escritor: “Não explica onde nem quê, mas é coisa para comprar a Gândara em peso, sem esquever o belo femeaço de Corgos”. Esta obra foi publicada em 1953, três anos depois de que Carlos de Oliveira se marchara para Lisboa. Porém, a localização da acção faz-se em Montouto, na região de Gândara e curiosamente, o próprio autor viveu ali quando era uma criança.


IV.Valorização pessoal
Do meu ponto de vista, esta obra possui uma forte simbologia que se reflecte já no próprio título Uma abelha na chuva. Gostei muito da metáfora das pessoas-abelha que se vêem submersas numa sociedade-colmeia que se apresenta com todos os seus problemas e conflitos.
Não facilitam a compreensão dos acontecimentos as numerosas analepses que se inserem ao longo do texto, e que em muitos casos se apresentam como correntes de consciência. Não obstante, a sua inclusão provoca uma aceleração na leitura, tal vez pela justaposição das cláusulas da oração, muito surpreendente. A isto devemos somar a ponte que se estabelece entre o passado e o presente por meio da água, facto que completa o circulo e da a sensação de produto fechado, perfeito.
E precisamente esta última ideia é com a que fico, com a de produto perfeito. Esta é uma dessas obras das que sempre te ficará uma agradável sensação, pelo muito que desfrutas-te lendo-a, e melhor o passas-te reflexionando sobre ela.

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