Sexta-feira, 9 de Abril de 2010

Mário de Sá-Carneiro: "Estátua falsa" (Dispersão, 1914)


ESTÁTUA FALSA




Só de oiro falso os meus olhos se douram;

Sou esfinge sem mistério no poente.

A tristeza das coisas que não foram

Na minh´alma desceu veladamente.



Na minha dor quebram-se espadas de ânsia.

Gomos de luz em treva se misturam.

As sombras que eu dimano não perduram,

Como ontem, para mim, Hoje é distância.



Já não estremeço em face do segredo;

Nada me aloira já, nada me aterra:

A vida corre sobre mim em guerra,

E nem sequer um arrepio de medo!



Sou estrela ébria que perdeu os céus,

Sereia louca que deixou o mar;

Sou templo prestes a ruir sem deus,

Estátua falsa ainda erguida ao ar...




Gaspar Simões considera o autor, junto António Nobre, como dos mais subjectivistas. Uma introspecção através da qual o poeta tematiza sobre a sua pessoa. Fala de si mesmo, mas como se já não fosse ele próprio, ou essa é a impressão que se desprende ao ler um poema como este.

O subjectivismo profundo que coloca nestes versos Sá-Carneiro, e na própria Dispersão (1914) à que pertence, podem facilmente levar a que queiramos indagar no controvertido meio e na educação que o poeta experimentou em vida. Haja relação ou não entre o “eu” poético e o autor o certo é que já desde a primeira estrofe se mostra o desencanto vital (“A tristeza das coisas que não foram”) dessa “estátua falsa” que é o seu ser no mundo e como nos indica António José Barreiros. Sentimento este patente em toda a obra na que se enquadra a nossa peça.

Além disso, compre dizer que Dispersão, e seguiremos aqui a Cabral Martins, conta com doze poemas que conformam um todo e cuja ordem não é arbitrária, senão que revela uma relação muito forte entre todas as composições. Mesmo há autores, como Alberto de Lacerda, que chegaram a referir o livro como um único longo poema. Reparemos então numa carta do próprio Sá-Carneiro a Gilberto Rola Pereira (11 de Maio de 1913) para encontrarmos nela a intencionalidade explícita do autor de tecer na obra ligações intertextuais evidentes:

“Reunirei uma série de 10 ou 12 poesias numa plaquette sob o título Dispersão. Essas poesias têm um elo entre si e descrevem o estado de abatimento de mim próprio – a dispersão de mim próprio.”

Elo que dá ao conjunto um ar de conto abstracto. Casa poema singular ganha um sentido maior se lido no lugar que ocupa na série de doze: cada poema é, ao mesmo tempo, singular e não-autónomo, todo e parte, unidade e elemento. É uma resolução das diferenças e a vinculação a um discurso geral segundo um modelo que não se repete em Sá-Carneiro, e é, de resto, muito raro. Elo que tem uma contrapartida semântica. Os temas são relacionados com um único campo, o da mencionada subjectividade. Os próprios títulos recebem sentido dessa referência, pois são estados (“Inter-Sonho”, “Vontade de Dormir”, “Além-Tédio”) ou gestos (“Escavação”, “Rodopio”) ou modos (“Álcool”, “Dispersão”, “Quase”, “Como Eu Não Possuo”), ou mesmo que reflectem metáfora do “eu” como é o nosso poema (“Estatua Falsa”).

Esta espécie de existencialismo que verificamos no poema mostra a realidade interior do poeta e semelha producto do efeito que produz nele o conhecimento do mundo. Sente-se deslocado da própria realidade e nunca sentiu identificação positiva com ela. É como se nos estivesse a dizer que ele não pertence a este mundo nem ao tempo que lhe tocou viver.

As sombras que eu dimano não perduram,
Como ontem, para mim, Hoje é distância.

A angústia e o sentimento de dispersão (“Nada me aloira já, nada me aterra:”) é provocada pelo mencionado desencontro consigo próprio e com o mundo.

A tristeza das coisas que não foram
Na minh´alma desceu veladamente.

Sá-Carneiro, inadaptado do seu tempo (“ Sou esfinge sem mistério no poente”) e do mundo porque daquela o mundo tal vez não estivesse preparado para o entender, sobre todo no campo da sensibilidade estética. Contudo, dos seus versos tristes e pavorosos parece-se evocar também que tinha feito quanto puído por se reencontrar nesse mundo hostil, apesar de que os resultados fossem nulos (“Na minha dor quebram-se espadas de ânsia”).

Não muito valorado na altura pelo seu trabalho artístico, afectávam-lhe muito as duras críticas, mas Sá-Carneiro era consciente de que a sua poética seria apreciada com o tempo e ele posto no lugar do sistema literário que lhe teria de corresponder (“La Historia me absolverá” disse uma vez Fidel Castro!) apesar de que esta idéia não esteja patente nestes versos. O que há aqui é distância com o seu tempo e o seu mundo que não o compreende, ou não o entendem a ele.

Desliga-se do mundo e mesmo da existência como demonstra o primeiro verso onde esse “oiro falso” com o que se identifica nos evoca a fustração de todos os desejos, mesmo o de existir. O “oiro” simbolizaria a infância como espaço do ideal que não chega a conseguir. Deste modo abundam na composição idéias contrapostas para criar esse efeito de todo e nada, o que puído ser e não foi, e não é. Só lhe fica a angústia (“A vida corre sobre mim em guerra,”), o pressentimento da morte que não teme e que supuremos que aceita como solução final a esse sentimento (“E nem sequer um arrepio de medo!”) e como viria a confirmar o próprio suicídio do autor. Mas isto já seria abrir umas conexões demasiado nítidas entre o eu ficcional e o real. Contudo, estes versos mostram um sinal claro de abatimento que de alguma forma Sá-Carneiro também sentiu em vida.





Poesias. Mário de Sá-Carneiro. Lisboa, Ática: 1978.

História da Literatura Portuguesa. Barreiros, António José. Bezerra Editora. Braga, 1997.

O Modernismo em Mário de Sá-Carneiro. Martins, Fernando Cabral. Lisboa: Estampa, 1997.

0 comentários:

Enviar um comentário