Terça-feira, 13 de Abril de 2010

Judith de Teixeira: A voz da polémica

A figura de Judith de Teixeira emerge com força no sistema literário português a causa da polémica que suscitou a publicação em 1923 do seu primeiro livro titulado Decadência, acusado de “imoral”. Aparece num momento em que o campo político-económico se caracterizava por uma grão instabilidade derivada das numerosas conspirações e dos golpes de estado. Além disso, a mobilização militar e o colapso do comércio marítimo que provocara a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial, causaram numerosos problemas sociais como a inflação e o desabastecimento. Como consequência, o regime republicano não era o suficientemente forte como para exercer com as suas políticas laicas um controlo efectivo sobre a Igreja Católica que continuava a comandar a moral conservadora imperante.

Judith foi unha grão transgressora da mesma porque desafiou quaisquer estereótipos associados ao mundo feminino e incluiu o amor homossexual nos seus textos. Não obstante, a sua ousadia voltou-a para o esquecimento e o preconceito, tal e como quase sempre acontece com a maior parte das escritoras que se arriscaram a publicar textos que lutavam contra os roles de género impostos por um contexto globalmente misógino. O resultado foi que não entrou na nómina de escritores legitimada pelo cânone literário e, tal e como afirma Dina Piera Diz Donato, os poucos comentaristas da sua obra reduz-na a “unha poeta modernista, decadentista, adita à morfina e lesbiana”. Porém, a repressão mais visível sofreria-a em vida: o livro Decadência saiu em Fevereiro de 1923 e em breve sucederam-se reacções como a da Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa (LAEL) que pretendia limpar o sistema literário das obras dos então considerados “decadentes poetas de Sodoma”. Teve como porta-voz ao seu fundador, Pedro Teotónio Pereira1, quem denuncia no jornal A Época a "vergonhosíssima desmoralização, que sob os mais repugnantes aspectos, alastra constantemente". Porém, com grande probabilidade, este organismo estava a servir como face pública do poder institucional da época porque pouco depois, em Março, é ordenada pelo Governo Civil de Lisboa a apreensão e queima deste livro. Por esta altura também foram censurados Sodoma Divinizada de Raul Leal e Canções de António Botto sob as mesmas justificações embora o reconhecimento e visibilidade posterior destes livros fosse muito diferente a olhos da História da literatura.

A pesar das reacções que provocou a aparição de Decadência e a sua associação a um nome feminino, Judith manifesta em entrevistas dadas ao Diário de Lisboa de 6 de Março de 1923 e à Revista Portuguesa de 24 de Março desse mesmo ano a clara intenção de publicar um outro livro, mas agora “de versos, muito serenos, muito espirituais e que não devem ofender a moralidade literária da polícia...". E publicará como pré-apresentação da obra um soneto intitulado "Atomo" duma das páginas do Diário de Lisboa de 18 de Maio de 1923 (nº 648, p. 3). Em Junho do mesmo ano, aparece Castelo de Sombras, um livro muito mais cauteloso, facto que pode ser explicado pelo temor que lhe provocavam ainda os ecos do escândalo causado pela sua primícia literária. A recepção deste livro foi muito mais sossegada, a diferencia do que aconteceria com o seu último poemário titulado Nua. Poemas de Bizâncio, publicado já nos inícios da ditadura. Com este novo regime político instala-se a censura e reforça-se a moral católica ultra-conservadora provocando que subam de tom as desqualificações contra Judith. O livro Nua fora anunciado pelo poema "A cor dos sons", publicado na revista Contemporânea, n.º11. e em Junho, já com o livro à venda, sairia no jornal Revolução Nacional um texto onde era referido como "uma das vergonhas sexuais e literárias". Marcelo Caetano escreveria ainda no jornal Ordem Nova que tinham aparecido nas livrarias uns livros obscenos entre os que destacava o de Judith de Teixeira a quem qualificou de “desavergonhada”. Ademais, vangloriava-se pela cremação dos livros dela, de Raul Leal e de António Botto, a que chamava de “papelada imunda, que empestava a cidade”. Em clave desta polémica é que devemos entender a aparição dum texto como De Mim Conferência, publicado no mesmo ano que o anterior. É um ensaio em que se justifica e explica o acto escritural gerando uma relação com a própria biografia da autora. Portanto, Judith serve-se da elaboração duma teoria poética a traves da cal critica a moral e a hipocrisia vigentes afirmando que o artista se coloca acima dos preconceitos da época e da civilização em que vive, para intentar legitimar-se como poeta e justificar as suas escolhas repertoriais. Sete meses depois, dá um passo mais e publica um livro de contos titulado Satânia, que enfrentava a tudo e todos. As reacções não se fizeram esperar e depois de totalmente esmagada pela moral católico-ortodoxa da época, viu-se em 1927 sentenciada por José Régio, que diria: "Todos os livros de Judith Teixeira não valem uma canção escolhida de António Botto". Esta afirmação é muito significativa porque Judith é comparada com outro dos escritores que também fora acusado de imoral na polémica que desencadeara a Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa em 1923. Depois desta data, Judith assinou raras colaborações em revistas e jornais. Em 1928 publicou o "Poemeto das Sombras" na revista Terras de Portugal e logo disto, não se ouviria dela nada mais.


Para ver alguns poemas: http://www.andes.missouri.edu/andes/Especiales/APTeixeira/AP_Teixeira_2.html

Para ver o ppt da exposição:
http://www.scribd.com/doc/30652874/Judith

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