Quarta-feira, 24 de Março de 2010

O Livro do Desassossego por Bernardo Soares

O processo de elaboraçom do L.do D. começa em 1913, quando Pessoa publica na revista A Águia, do Porto, o texto “Na Floresta do Alheamento”, assinado por ele com a indicaçom: “Do Livro do Desassossego, em preparação”. Texto de teor simbolista-decadentista que o autor compara com o seu “drama estático” o Marinheiro.

O L.do D. continua a crescer sem ter umha estrutura definida, é umha obra de carácter fragmentário construída com pedaços incompletos e desconexos que parecem representar: “o meu estado de espírito actual de depressão profunda e calma” ou “Estou há dias ao nível do L.do D.”, como reconhece, Pessoa, em carta de 1914, a seu amigo Armando Cortés-Rodrígues.

Em 1916, escreve outra carta a Mário de Sá Carneiro, de tipo simbolista, em que admite a possibilidade de utilizar alguns trechos dela para o L. do D.

Nestas cartas, e outras, refere-se ao L.do D. sem indicar autoria mas pensa-se que, esta primeira fase, seria obra de Pessoa e nom de qualquer heterónimo ou personalidade literária.

No seu estudo sobre o L.do D., Lind, caracterizou esta obra como “um breviário do Decadentismo”, mas, que é Decadentismo? É o sentimento de que a sociedade que nos rodeia e a própria existência humana degenerou em relação a umha realidade ou a um sonho melhor. Este não é o mundo desejado. O decadentista é o saudosista português como António Nobre, Camilo Pessanha ou Mário de Sá Carneiro face à mediocridade de umha vida insatisfatória que leva à inactividade, ao tédio, à angústia, sempre à espera da regeneraçom do homem, adquirindo diversas soluçons para acalmar esse sofrimento: desde a vida hedonista ou as causas activistas até o sonho, o devaneio; quando nom se autodestrói envolvido na consciência do afastamento entre o real e o ideal e a utópica convergência entre eles. A Decadência gera Desassossego que é nom achar sentido à vida no aqui e agora, porque nom se alcança o sossego da inconsciência. Escreve Pessoa, numhas páginas do L. do D.: “Decadência é a perda total da inconsciência”. Neste mundo o poeta assume a sensaçom de alheamento que só se pode transcender polo sonho.

Assim, este primeiro L. do D., escrito entre 1913 e 1916, do Pessoa ortónimo, é umha expressom, em prosa poética, do simbolismo decadentista que, na altura, exprimia em poemas da sua autoria como: “Chuva Oblícua” ou “Hora Morta”.

Até aqui, falamos do primeiro período do Livro, mas hai diferentes propostas de organizaçom para ele:

Jorge de Sena, no prefácio que escreveu para o Livro encontra três fases: a primeira, de que já falamos, iria até 1917; a segunda intermediária, até 1929; a última, de 1929 até 1934, seria esta fase a escrita por Bernardo Soares, de tipo confessional, diarística e coloquial.

Lind, divide o Livro em duas fases: umha, até 1929, com maior artificialidade; outra, posterior, tocada pola simplicidade tendendo à expressão exacta.

Jacinto de Prado Coelho, na sua organizaçom dos textos, nom utilizou a divisom cronológica senom que apresentou os escritos conjuntamente, agrupando-os por “manchas temáticas”. Esta última organizaçom nom é muito coerente quanto às diferenças de estilo e conteúdo que se observam entre as duas ou três fases e é contrário ao princípio confessional que caracteriza o Livro.

Embora Pessoa nom deixou umha organizaçom acabada do Livro, podemos ler numha nota solta dele: “A organização do Livro deve basear-se numa escolha, rígida, quanto possível dos trechos, variamente existentes, adaptando, porém, os mais antigos que falhem à psicologia de B.S., tal como agora surge, a essa vera psicologia. Á parte isso, há que fazer uma revisão geral do próprio estilo, sem que ele perca, na expressão íntima, o devaneio e o desconexo lógico que o caracterizam”. Daqui, tiramos a conclusom de que os textos mais antigos nom som de B.S. mas de Pessoa ortónimo e passariam a ser de B.S. se se fixer umha escolha, umha adaptaçom e umha revisom.

O nome de B.S. como autor do L.do D. aparece numha carta de Pessoa a João Gaspar Simões de 1932, em que anuncia a publicaçom do Livro, a seguir à Mensagem, ainda intitulado Portugal, denominando B.S., nom como heterónimo mas como personalidade literária. Será em 1935, na carta que escreve a Casais Monteiro, depois de explicar como escreveu os três heterónimos, que já aparece como semi-heterónimo: “O meu semi-heterónimo B.S., que aliás em muitas cousas se parece com A.de C., aparece sempre que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual...”

Noutro texto diz: “É que B.S., distinguindo-se de mim por suas ideias, seus sentimentos, seus modos de ver e de compreender, não se distingue de mim pelo seu estilo de expor”.

Pessoa apresenta-nos B.S. como um empregado de comércio “que encontra de quando em vez em modestos restaurantes da Baixa lisboeta. Tem 30 anos, é magro...Veste-se com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Tem um certo ar de sofrimento e também um certo ar de inteligência...É admirador do Orpheu. Tal como os poetas desta revista, também escreve; na verdade é a escrever no seu quarto alugado que gasta as suas noites."

Correspondendo a primeira fase do Livro à autoria do Pessoa-ortónimo, já desde 1915 ou1916, pensava dar-lhe umha autoria semi-heterónima, mas será em 29-30, quando a personalidade de B.S. se afirme como autor na consciência de Pessoa. Falamos desta época porque é a partir daqui que observamos claras diferenças de estilo a respeito da primeira fase, em que, a obra adopta um carácter diarístico e confessional, no entanto, nunca perderá o seu teor decadentista. Aparentemente, trata-se de um manuscrito que B.S. lhe entrega a Pessoa, para ler ou publicar , em que começa por definir a sua obra: “Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, marco indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões...Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância”

Por esta definiçom, o L.do D., foi comparado com as Confissões de Rousseau e nomeadamente, com o Diário Íntimo de Amiel, filósofo suíço, a quem Pessoa-B.S. fai referência várias vezes no Livro; com afinidades quanto ao género utilizado, diário íntimo, constituido de elementos heterogéneos, mas nom só. O ter-se remetido ao papel de espectador lúcido, implacável, de si próprio, levou a Amiel a sentir-se “anónimo, impessoal, de olhos fixos como um morto, de espírito vago e universal como o nada ou o absoluto”, a despersonalizar-se com tal facilidade que se confunde momentaneamente com outros, a ter a sensaçom de que “o real é irreal e tudo, ele próprio, feito de matéria de sonhos”.

B.S. se declara destruído polo exercício incesante da inteligência, num afastamento da acçom. Também ele se divide em várias personalidades: “actores que se sucedem no palco da minha alma”, e que foi outra forma de autodestruiçom: “Criei em mim várias personalidades...Para criar destruí-me, tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente”

Por outro lado, é umha auto-interpretaçom muito coincidente com o caso de Pessoa, que diz na carta a Casais Monteiro: “seja como for, a origem dos meus heterónimos está na minha tendência orgánica e constante para a despersonalização e para a simulação”

Mas, B.S., se distingue do Pessoa real em que parece ter umha cultura diferentemente orientada, mais francesa do que inglesa (cita, em vários trechos, Rousseau, Chateaubriand ou Michelet) e vinculada aos clássicos como Horácio ou Virgílio; e, ainda, por nos transmitir o seu quotidiano lisboeta, no escritório do patrão Vasques, na rua dos Douradores em que mora, no café, nas ruas por onde transita, olhando os demais transeuntes com “ternura absurda e fria”, imaginando-os “fantoches movidos pelas cordas que vão dar aos mesmos dedos da mão de quem é invisível”, no modesto quarto em que lê o ajudante de guarda-livros, que, perseguido polo tédio, procura como soluçom o sonho desperto, a fuga à acçom e à vida. Escreve, Pessoa-B.S.: “Em mim o que há de primordial é o hábito e o jeito de sonhar. As circunstâncias da minha vida... fizeram do meu espírito uma constante corrente de devaneios...Vendo-me de fora, como quase sempre me vejo, eu sou um inapto à acção”. Mas avança na sua definiçom: “Eu não só sou um sonhador, mas sou um sonhador exclusivamente, em mim o devaneio ininterrupto substitui a atenção”

Este sonhar a realidade, leva a Eduardo Lourenço, comentador do L.do D., a vê-lo como um texto suicida. Ou a Robert Bréchon, a colocar B.S. no grau zero da heteronímia e a dizer que: “é personagem não apenas sem máscara mas sem rosto”, ou: “Soares não é Pessoa é o nada que Pessoa descobre em si próprio”

É, através, de B.S., que Pessoa revela umha parte de si, a do seu quotidiano como correspondente comercial, a dos seus hábitos lisboetas, a dos seus sonhos divagantes, a dos encontros nos cafés, a das contemplaçons do Tejo, a das suas frustaçons; antes o seu sonhar acordado do que agir como intelectual do Orpheu. O poeta caíndo no pessimismo, no cepticismo, na angústia, no tédio, no sonho sem acçom.

Umha parte de si imprescindível para conhecermos a realidade complexa de um espírito como o de Pessoa, que neste Livro, opera através de um jogo de ambiguidades, desvelando e ocultando a sua própria personalidade.

Para Lind, o L.do D., é umha obra do decadentismo, como já destacamos, de que Pessoa nunca se teria conseguido libertar completamente, típica de umha geraçom que sofreu o que Nietzsche chamou de “crise de todos os valores” e que só conseguiu através da arte a possibilidade de catarse para o seu desassossego metafísico.

0 comentários:

Enviar um comentário